quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Palmeiras Selvagens

Que o William Faulkner me perdoe pela apropriação.
Culpa do destino que plantou seu livro no meu caminho - duas vezes.

Palmeiras Selvagens

Há uma Palmeira Selvagem na frente de minha casa
Que me serve de descanso quando tudo quebra e torce
E nenhuma música agrada meus ouvidos treinados
Para não se sentirem confortáveis com os barulhos das máquinas
Que corromperam o silêncio do mundo.

A janela do meu quarto enquadra a Palmeira Selvagem
Da meia-altura de seu torço ao fim do mais alto de seus galhos
Que me servem de aposta durante as tempestades de verão,
Pois digo que nunca os verei torcer ou quebrar e os chamarei,
Por artifício da inveja, de meus braços.

Mas hoje foi um dia de Sol e me sentei á minha varanda
Observando a solene firmeza da Palmeira Selvagem que balançava
Acenando-me a melodia que puxa da Terra e dela se alimenta
Para amanhã não se surpreender com os ventos do Norte e com a Chuva
Que a corta fundo, talhando minhas digitais.

E quando volta o furacão e a Palmeira Selvagem balança,
Volta-me o medo bobo do fim das Eras das Palmeiras Selvagens,
Portanto corro para segurar meus espelhos que convulsionam calados,
Corro para pegar meu estandarte todo branco recém confeccionado,
E planto meus pés fundo no meu jardim.

sábado, 2 de agosto de 2008

Homens

Enquanto andava sobre os cacos das noites passadas e do dia de hoje
Quando os homens sem pais quebraram as bancas de jornais e as suas casas
Alvejando as mentiras brancas que lhes foram contadas
Vi um alvo anjo do Senhor.

Olhando aquele ser de asas douradas, senti-me milhão de vezes mais fraco
Como se borboletas tirassem minhas forças e as levassem para o céu
Desenhando em tons pastéis minha mortalidade e passageirisse
Sujando as mãos do anjo de vermelho-sangue.

Tive medo que a minha lógica pudesse rapidamente
Questionar-me e fazer a visão desaparecer,
Por mais sangrenta que ela fosse, não poderia aparecer
Para um filho do Senhor que a tanto ignora seu Pai.

Portanto contive-me e re-organizei minhas memórias,
Sabia que lhe deveria algo perguntar, então,
Enquanto bombas celestes zuniam através de todos os ouvidos
Isto o perguntei:

Nove anos apenas e um buraco no peito?
Negou-lhe, ao seu pai, a paterna divina defesa
Derrubando as lágrimas que secam no cacto frio de espinhos
Do homem perdido na barganha do demônio.

Olhava-me com a amargura dos irremediáveis milênios,
O anjo do Senhor; sua carruagem flamejante, de ouro dos olhos dos homens,
Os que atiram para cima sem parar, está pronta, preparada para voar
Para os portões do Paraíso, onde o olho do homem não se corromperá.

E em todo lugar havia o alvoroço e o vidro quebrado e
Os sons entravam em qualquer lugar. Mas o seu braço era forte e me segurava,
Queria tocar sua trombeta e chamá-los todos às suas asas,
Queria tomá-los em seus braços e iniciar uma celebração.

Mas naquela maçã havia mais, e Lúcifer sabia mais do que era,
Pois o homem não se interessa mais por músicas e celebração
E as mãos do anjo do Senhor começam a pingar
O sangue dos filhos dos homens com buracos no peito.

Grita em lamento, a criatura divina, chora trovões no céu,
Subindo para onde agora tenho certeza nenhum homem deveria chegar.
Pois nós, os filhos do Senhor, cavamos nosso peito em busca do ouro
Nos olhos dos filhos dos nossos irmãos, aqueles que alvejamos.

Sete bilhões de anos e peitos despedaçados,
Negamos, a nossos filhos, a bênção divina da defesa
Derrubando as lágrimas que secam no cacto frio de espinhos
Dos homens perdidos na barganha do demônio.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Tempos Verbais

Vez ou outra, por outros dias e até neste mesmo (provavelmente outros seguirão), penso no que poderia ter sido.

Esta construção verbal é recorrente em meus trabalhos: poderia ter sido.

Quando fez-se o verbo, Ele era. Apenas o Ser era compreensível, mais que isso, apenas o Ser de fato Era. E a todos nós Ele recai: seguramos nossas mãos ao redor deste fosso que é o Ser. Olhamo-nos, olhamos para o Fundo. Ele apenas É.

Mas não sei dizer, apenas aconteceu. Olho também para o céu e o contamino com o escuro. Ao pensar em adiantamento, penso logo sou, por pensar posso existir - posso. Vejo, de repente, o Ser se torna o Poderia ser. Apenas escuto.

Mas ao escolher a hora do poder, sento e escuto. Sofro por escolher a hora do poder, sento e escrevo. Sofro pelo Poder de ser, distância do Divino. E quando me dou conta de tudo que posso ser mas serei de fato apenas um pequeno conjunto de todas essas coisas, sofro e escolho.

Sofro e escolho para poder escrever adiante. Escrever sobre tudo que poderia ter sido. E este é o tempo que mais dói.

O Velho

O sino toca.
As árvores parecem balançar; não há vento.
Onde coloquei meus óculos?
As cores parecem roubadas;
Algum dia vou me arrumar outro daqueles sinos.
Eles balançarão para mim, balançarão ao vento.

Latem os cachorros - como correm.
Há em suas brincadeiras uma que foi minha,
Mas que não ouso comentar.
Talvez se conseguisse outro daqueles sinos,
Um que balançasse ao vento,
Ou uma bicicleta.

Se houvesse uma bicicleta, nela haveria
Um daqueles sinos, um que tocaria ao vento.
Se não há vento, não é problema,
Eu ponho meu sininho para balançar
Enquanto corro com minha bicicleta
E com meus cachorros inocentes.

Mas não há bicicletas,
Rezo pelo vento e pelos sinos.

(20/04/08)

domingo, 20 de abril de 2008

O Nada é cheio; nada do que Quero.

A tristeza do começo de uma poesia - pela ânsia da escrita - é dada pela incapacidade da imaginação. Sinto-me, mais que nunca, passível diante de meu maior temor: ser nada mais que um eu de pedra, ser tudo menos que aquelas bonitas palavras.

Ser como os Maiores, se não pelo tamanho pelo menos pelo ofício.

"É sempre a nossa tentativa de sermos plenos sem, de fato, conseguirmos sair da prisão de nós mesmos..." (Brisa de Araújo)

Sim, estas são minhas tentativas. Há um Caderno Negro cheio delas: um que parece passado, fica mais distante. Meu nome se apaga.

Me sobram as reminiscências; as vezes algo vem como o que segue. O resto é do Passado.

Não sei se tenho coragem para me mostrar o passado.

Esta Poesia é sobre nada

Que venham as palavras bonitas,
as rimas mal-feitas,
Deixo chegarem as frase esquisitas
ou as mais perfeitas seqüências
de letras
(que podem nem fazer sentido).

Sento-me ao caderno,
escrevo ao Nada e nada leio,
só tenho o Nada,
Mas nada não é cheio.

Proponho o enrolado,
ponho as vírgulas fora de ordem
, deixo o leitor apavorado
- Oh, que escrito original
Nada, é que o meu nada não é normal.

Leio Yeats, vou ao Interior,
Escolho (só por prazer)
uma viagem ao exterior:
Passo tempo falando de neve
ou qualquer coisa que leve tempo,
pois apesar de nada ter para falar
ainda acho que tenho talento.

Mas essa idéia morre, cai no chão -
Talento é para poucos -
A mim só sobra a solidão.
Sai o sangue, sai a rima, nada que me comprima,
Que represente meu quadro,
Meu nome que nele deveria estar pintado. Talvez

Apelo aos Deuses, trovões e tragédias romanescas:
se não funciona
Liberto minha mente,
Sirvo filósofos à Puttanesca.
Sinto que perco, me perco pouco a pouco,
Um dia, um dia não haverá mais nada.
Meus dedos cairão, não sobrará mais nada.

Sei que nada serei; apenas uma gaiola vazia.

(20/04/08)

quarta-feira, 2 de abril de 2008

A Fuga


Falta de Ordem - a cronológica -, apenas a falta de qualquer lógica: seria ela, a Ordem ou a lógica?, necessária?

A lógica da repetição faz sentido; é presente, não respeita o cansaço. Aquela faixa engraçada de lados trocados suga as energias daqueles que tentam pular para outro lado, o inexistente.

Por isso A Fuga: A Arte (aqui utilize o conceito que quiser). Devo, então, usar as palavras de certo Pessoa: "O essencial da arte é exprimir; o que se exprime não interessa."

E se a expressão for não mais que essas mortalmente repetidas palavras? Uns farrapos de letras que possivelmente milhares já cantaram antes; representantes da vileza de um sentimento comum.

Responda-me, Amigo.

Inglaterra

Vou-me embora pra Inglaterra
Andar em ruas estreitas
Parar por entre relógios
Tomar chá com chapeleiros
Ver um anjo na neve

Vou voando pra Inglaterra
Deixar este mar bravio
Despir do sentimento arredio
Pelo chicote dos olhares descritos
Daqueles que são bons demais

Sabe, espero encontrar na Inglaterra
Nem nova vida nem nova amada
Só nova alvorada e nova morada,
Bases firmes e fortes para agüentar o peso
E a dor da consciência daquele
Que foge sem olhar pra trás

Vou fugindo pra Inglaterra
Para esquecer que no beijo fiquei só
Até no imaginário, que é secreto,
Não vou lembrar dos seus seiscentos amigos
Nem dos quatrocentos amantes antigos
Muito menos lembrarei de seu sorriso furtivo
Que até a cor dos meus cabelos levava

Vou chorando pra Inglaterra
Girar nas pedras em círculo
Procurar um grande monstro perdido, e
No infinito das estrelas cadentes e dos cometas,
Me perderei no caminho de leite,
Que derramado e salgado estará,
Pois eu, estátua de sal, dissolvido vou ficar.

sábado, 29 de março de 2008

Recomeço


A arte do recomeço não está conectada ao esquecimento; conexões que se gostaria de perder ou fazê-las mais fracas, simplórias, sem detalhes.

Pelo menos não a minha. Grito ao recomeço para criar meu nome novo dos destroços de antigos outros - um processo de autofagia temporal que me fará não outro, mas além do que fui (o que poderia ter sido?).

As intermitências de uma função comportamental julgarão a frequência de minhas passagens, umas breves outras menos do que deveriam, por este porto.
Escrevo ao recomeço e, como ilustração de mim mesmo, a primeira (escolhida apenas pela força que me põe a escrever):

Do Saber

eu sei
eu sei de tudo
da flor morrendo seca do jegue montado no piano,
sei o que é um cachimbo

uma privada de idéias
rei do medíocre
imperador do mediano
dançando na mediocridade do mediano
mediocridade dourada
aurea mediocritas
ave latim chachorresco

de um dourado verdemeleca
verdemeleca que suja o céu na intersecção do horizonte espadachim com o panodeastros
panodeastros que me encobre
um traponasal
um traponasal grande sabedor de tudo...
de tudo que ninguém quer saber